A intermediação entre produtores e compradores exige boa leitura de mercado, ética sólida e adaptação às crises e às inovações de um cenário bastante volátil.
Há mais de um século, a comunicação entre produtores de café, no interior do país, com os grandes centros consumidores ou com os exportadores não era fácil. Por isso, muitas vezes, um fazendeiro do Oeste Paulista que precisasse tratar com as exportadoras de Santos acionava um profissional específico: o corretor de café. É ele que faz o meio de campo entre quem produz e quem vende. Ao longo do tempo, a profissão caminhou com o setor: mudou, sobreviveu a crises e se adaptou.
O café é um mercado sensível, com preços influenciados por fatores que vão de secas a guerras, como os conflitos no Oriente Médio. Com tanta oscilação, o corretor assume papel estratégico, atuando como intermediário entre a oferta dos produtores e a demanda de comerciantes e exportadores.
O dia a dia
O corretor de café ajuda o produtor a obter melhores preços e a ampliar a clientela. Acompanha desde a Bolsa de Mercadorias de Nova York até indicadores de safras, além de ajudar na organização da logística e da documentação das transações. “A gente monitora o mercado. Chega para o produtor e diz que não é hora de vender, que é para segurar porque teve geada”, diz o corretor de café Gustavo Matias, de Franca (SP). “Ou ajuda a encontrar oportunidades, dizendo ‘seu café está valendo mais, vamos buscar uma empresa que pague mais pela qualidade’. Orientamos o produtor.”
Gustavo veio da TI, até que em 2010 teve a chance de trabalhar com um cliente que era fazendeiro. Desde 2017, dedica-se 100% ao café: além da corretagem, dá cursos de precificação e exportação. A guinada na carreira se deu porque ele achou a flexibilidade e o dinamismo dessa profissão mais promissores. “Fui a mais de 30 países e centenas de cidades como corretor. Fora que é muito gostoso trabalhar com café, é um mercado apaixonante”, diz.
Uma das responsabilidades do corretor é garantir que as partes cumpram o combinado. Um exemplo: o cliente fura uma saca no caminhão para ver se bate com a amostra enviada a ele pelo corretor. Logo, esse profissional precisa ter ética inabalável. “O produtor me liga, eu entro em contato com um comprador, a gente fecha o negócio, combina preço e fica nisso, muitas vezes sem contrato, tudo no fio do bigode”, diz.
Menos de 200 profissionais em todo o Brasil
Credibilidade é essencial ao corretor. Até porque essa profissão também está na lista daquelas que a inteligência artificial vem afetando. “Cada vez mais as empresas negociam diretamente entre elas. Hoje há mais acesso a informação, e a IA é uma ameaça adicional”, explica Marcus Magalhães, presidente do Sindicato dos Corretores de Café do Espírito Santo. “Somos menos de 200 no Brasil. Para não sermos descartados, precisamos nos mostrar indispensáveis.”
Em um mercado cada vez mais tecnológico e conectado, o corretor de café continua sendo a ponte humana que traduz números em confiança, e volatilidade em decisão. Entre safras incertas, telas cheias de dados e negociações que ainda se fecham na palavra, é esse profissional que sustenta relações, enxerga oportunidades onde outros veem risco e mantém viva uma tradição que atravessa gerações. Prova de que algumas decisões ainda dependem de experiência, reputação e um bom instinto.
A real do trabalho
Atividades-chave
Conectar produtores de café com o mercado. Acompanhar todo o processo, desde o envio de amostras até o transporte da carga, assegurando o cumprimento do acordo e a satisfação de ambas as partes.
Quem contrata
Em geral, o profissional trabalha de maneira independente ou vinculado a cooperativas. Há também os que representam as empresas exportadoras.
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O que fazer para atuar na área
Não existe formação específica. É preciso ter boa comunicação, capacidade de negociar e conhecimento que abrange desde métodos de cultivo até degustação.
Média salarial
A remuneração se baseia em comissões. O corretor ganha 0,5% do que é gerado em uma venda. Iniciantes recebem R$ 3 mil, enquanto os mais experientes podem passar de R$ 10 mil.
Fonte: https://vocerh.abril.com.br/carreira/saiba-o-que-faz-um-corretor-de-cafe/