Guerra no Irã chega ao campo capixaba pelo preço do fertilizante

O conflito no Irã não começa e termina nos noticiários internacionais. Ele percorre rotas marítimas, atravessa o Estreito de Ormuz e chega ao campo brasileiro na forma de um custo que o produtor conhece bem: o fertilizante. Para o Espírito Santo, estado que concentra 49 mil propriedades rurais de conilon distribuídas em 68 municípios, o impacto não é abstrato.

O Brasil importa mais de 85% dos fertilizantes que consome, segundo dados da ANDA – Associação Nacional para Difusão de Adubos, índice que vem aumentando ao longo dos últimos anos. Essa dependência, que já era um problema estrutural amplamente debatido, se torna crítica quando há instabilidade nas regiões que abastecem o mercado global de insumos agrícolas. E o Oriente Médio é exatamente uma dessas regiões.

A região responde por cerca de 40% das exportações mundiais de ureia. Em 2024, originou 16% dos fertilizantes nitrogenados importados pelo Brasil. Quando somados à Rússia e à Venezuela, zonas igualmente sensíveis geopoliticamente, a dependência de nitrogenados chega a 32%. O Estreito de Ormuz, passagem obrigatória para boa parte dessa carga, concentra hoje o principal gargalo logístico do agro global.

O impacto já aparece nos números. A importação de ureia pelo Brasil somou 790,7 mil toneladas entre janeiro e fevereiro de 2026, o menor valor para o período desde 2018, queda de 31,1% em relação ao mesmo intervalo de 2025. Menos volume entrando e preço subindo: entre o início das tensões e a primeira semana de abril, os preços FOB da ureia negociada em barcaças em Nova Orleans avançaram cerca de 47%. A janela tradicional de compra de fertilizantes para o segundo semestre está aberta e os produtores se deparam com uma das piores combinações possíveis: insumos mais caros, margens mais apertadas e incerteza sobre volume disponível.

Para o produtor capixaba de café conilon, a equação tem dados concretos. Nos sistemas manual e semimecanizado do conilon em municípios como Cachoeiro de Itapemirim, Jaguaré e Rio Bananal, os fertilizantes representam 33% do Custo Operacional Efetivo. Trata-se do segundo maior item de custo da lavoura, atrás apenas da mão de obra. Qualquer alta expressiva nesse insumo comprime diretamente a margem e essa compressão acontece num momento em que o preço do conilon já recuou significativamente em relação aos picos de 2024.

O cenário de 2026 inverte a equação que tornou 2024 confortável para o produtor capixaba. O diesel, insumo central na colheita mecanizada, subiu 12% no Espírito Santo em março de 2026, segundo a Agência Nacional do Petróleo. Levantamentos do setor estimam que esse encarecimento pode elevar em até 15% o custo operacional da etapa de colheita. Fertilizante e diesel pressionando o custo ao mesmo tempo, com o preço da saca no sentido contrário.

Cerca de 40% do custo de produção agrícola depende de fertilizantes. O repasse desses custos ao longo da cadeia não é imediato e costuma levar meses, acompanhando o ciclo de produção agrícola até chegar ao consumidor. Na prática, isso significa que o produtor absorve o aumento antes de qualquer ajuste no preço do que vende e sem garantia de que esse ajuste virá.

O Ministério da Agricultura identificou risco real de déficit entre 1 e 3 milhões de toneladas de fertilizantes fosfatados em 2026, suficiente para comprometer a produtividade das safras 2026/2027. O cenário mais grave, de interrupção prolongada do tráfego em Ormuz, colocaria o Brasil diante de risco concreto de desabastecimento de determinados insumos. Especialistas do setor avaliam que, se a passagem for normalizada até maio, haverá pressão nos custos e preços mais altos, mas provavelmente sem falta de volume. Se não abrir até esse prazo, além dos reflexos nos preços, haverá redução do volume entregue.

O Brasil tentou, após o início do conflito na Ucrânia em 2022, diversificar fontes de fornecimento e esses canais seguem ativos. Mas o mercado global de fertilizantes opera com folga reduzida, e qualquer choque de oferta em regiões produtoras estratégicas repercute rapidamente no preço pago pelo produtor brasileiro.

O Espírito Santo responde por 70% da produção nacional de conilon e carrega o café como 38% do seu PIB agrícola. O fertilizante que garante essa produtividade vem, em grande parte, de regiões que hoje vivem sob tensão geopolítica. Essa é a conexão que o produtor precisa entender para planejar melhor a próxima safra e decidir com mais segurança quando e quanto comprar.

Fonte: https://www.folhavitoria.com.br/folha-business/guerra-no-ira-chega-ao-campo-capixaba-pelo-preco-do-fertilizante/