Há três anos como diretora-executiva, Vanusia Nogueira lidera de Londres uma revolução no setor com foco em sustentabilidade e diálogo com produtores
Vanusia Nogueira foi a primeira mulher a assumir a cadeira de diretora-executiva da OIC (Organização Internacional do Café), cargo máximo da entidade. A executiva, que está na lista Forbes Mulheres Mais Poderosas do Brasil, tomou posse em 2022 e mudou-se para Londres, onde fica a sede da organização fundada em 1963 e que hoje reúne 77 países membros. Desde então, vem promovendo mudanças significativas na OIC e em seus embates globais.
O café é uma das principais commodities do mundo, com produção estimada de 176,2 milhões de sacas de 60 quilos na safra 2024/25, um aumento de 4,2% em relação ao ciclo anterior — puxado principalmente pelo crescimento da produção no Brasil e pela recuperação das lavouras na Indonésia.
Ao assumir a presidência da OIC, a pandemia ainda deixava sua marca no mundo dos negócios. A organização, que já havia enfrentado uma crise de preços no setor, teve que lidar com uma nova realidade, na qual as visitas aos países produtores foram interrompidas.
Vanusia logo percebeu que a dinâmica precisava mudar para restaurar a presença física e o diálogo direto com os produtores e membros da indústria. “Quando cheguei, a OIC estava retomando as atividades presenciais, e passei a viajar bastante. Isso foi fundamental porque eu já tinha uma boa rede de contatos, fruto da minha experiência anterior. Quando fui aos países produtores, encontrei muitas pessoas que já conheciam meu trabalho e, ao mesmo tempo, havia uma demanda muito forte por diálogos. Os produtores, especialmente as mulheres e os jovens, queriam falar sobre os desafios que estavam enfrentando. Foram viagens intensas, de muita demanda por soluções e apoio.”
Antes de assumir a OIC, Vanusia liderou por 13 anos a BSCA (Associação Brasileira de Cafés Especiais), em um período marcado por profundas transformações no setor, com projetos de internacionalização do café brasileiro e fortalecimento das marcas da bebida no exterior. “Minha experiência na BSCA foi fundamental para chegar à OIC, mas o ambiente internacional é bem distinto. A OIC tem um modelo de atuação baseado em diplomacia, em que precisamos entender as particularidades de cada país produtor e consumidor. O papel da OIC é estratégico na articulação e precisamos ser um ponto de convergência que prioriza a sustentabilidade, a equidade social e o desenvolvimento econômico.”
Hoje, as agendas de Vanusia dão conta de um amplo leque, que vai de novas legislações ambientais a questões climáticas. Entre elas, a lei de desmatamento da União Europeia, que trouxe questões urgentes sobre como a produção cafeeira poderia se alinhar às exigências internacionais, sem comprometer os países produtores. “A questão do desmatamento tornou-se central e a mudança climática não é mais uma ameaça futura.”
Reportagem original publicada na edição 127 da Forbes, lançada em fevereiro de 2025.